A coleção
Os motivos que levam alguém a colecionar são tão numerosos quanto os são os colecionadores. Há, porém, um motivo comum a todos: o desejo de possuir, ordenar e preservar bens. Esse desejo se realiza com a contemplação da coleção, que é tanto mais admirável quanto mais completa. Se a completude é causa de admiração, o que pode motivar alguém a formar uma coleção que não se pode completar?
Nesta mostra, Pazé traz uma coleção, não de obras de arte, mas de imagens de pinturas célebres que, destituídas da qualidade de serem bens raros e únicos, ganham a efemeridade do adesivo vinílico em que são impressas e vistas no breve lapso de tempo desta exposição. A efemeridade dessas imagens têm algo de virtual, apresentando-se ao olhar em evidente alusão à imagem especular. Nenhum espelho real reflete a imagem desta coleção, no entanto, ela se mostra duplicada em paredes opostas da galeria, e, em sua duplicidade, esvai-se o sentido do que deveria ser observado diretamente, em correspondência com o visto nas pinturas reais, e do que se mostra revertido em relação a elas.

Na Coleção de Pazé, a duplicidade não provém somente da oposição entre real e virtual, mas também da existente entre original e cópia. Das imagens vistas na Coleção, a do Arquiduque Leopoldo Guilherme em sua galeria de pinturas em Bruxelas (1647) de David Teniers o Moço, é eleita como princípio de ordenação espacial, deixando suas modestas dimensões de pintura de cavalete para dominar as superfícies mais extensas do espaço expositivo. A galeria do arquiduque é ampliada e multiplicada em imagens de salas formadas por paredes, portas e corredores irreais que se sucedem ao infinito. Imagens escolhidas por Pazé substituem as que figuram no original de Teniers, elas próprias cópias de pinturas célebres. O naturalismo preciosista dessas imagens intensifica a sensação de vertigem, exatamente como se dá na descrição da galeria imaginária de Georges Perec em A coleção particular (1979).
Outro jogo duplo se forma em torno de um ponto comum a todas as imagens escolhidas por Pazé: há nelas pelo menos uma figura que mira fixamente o observador. Vê-se a Coleção, a Coleção olha o espectador. A duplicidade lança a incerteza: é o colecionador que possui, ordena e preserva ou seria ele uma presa vigiada ao contemplar a Coleção?
Magnólia Costa
Setembro de 2009
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